Tabaco de enrolar


Poderia vir com o rótulo: "Tabaco para tempos de crise." Quem trocou os cómodos cigarros embalados pelo tabaco de enrolar garante que, no final do mês, a mudança compensa. Mas nada de ilusões: se ouvir que o cigarro de enrolar é menos prejudicial à saúde, estará a ouvir apenas um mito. Shane Watson, cronista do "Sunday Times", contava há uns meses como o culto de enrolar cigarros tinha deixado de ser cool e uma "cerimónia privada admirável" para passar a ser um indicador económico. Enrolar tabaco - envolve filtros, mortalhas, tabaco, destreza e, ufa, uma paciência de santo - tem o seu charme e voltou a estar na moda. O tabaco de enrolar não é amigo dos pulmões, mas parece ser mais saudável para a carteira.

Pedro Cartaxo, operador de backoffice, de 28 anos, aderiu há um ano ao tabaco de enrolar e, feitas as contas, garante: "No final do mês, poupo mais de 50%." Para poupar tempo e combater a falta de jeito para enrolar cigarros à mão, comprou uma máquina de tubos. E até já descobriu a altura perfeita para se aventurar no trabalho manual. "Enquanto estou a ver um jogo de futebol na TV, uso a máquina e faço o equivalente a um maço num instantinho."

Os astecas fabricavam-nos em folhas de junco ou tubos de cana. O pistoleiro mais rápido do que a sombra tinha sempre um, bem enrolado, ao canto da boca. Isto até o seu criador ter decidido passar uma mensagem antitabágica e transformar Lucky Luke num cowboy com hábitos politicamente correctos: a beata de tabaco enrolado ao canto da boca foi substituída por uma palhinha.

Em Portugal, com o aumento dos preços do tabaco e com a crise à mistura, os velhos hábitos deste cowboy têm conquistado mais adeptos. Diogo Domingues, da tabacaria do Centro Comercial Colombo "Puros & Companhia", afirma que a venda de onças de tabaco de enrolar "terá triplicado" naquela loja. Se três maços de tabaco podem custar 10,80€, Diogo Domingues avança que "com uma onça de White, marca com conteúdo equivalente ao Marlboro, a mesma dose consegue-se por 4€". Faltarão os filtros e as mortalhas que, quando comprados em doses gigantescas, saem a preços irrisórios. A oferta tem acompanhado a tendência dos fumadores: há cada vez mais marcas de tabaco de enrolar no mercado, sem ou com aromas e sabores - e até marcas conceituadas já se renderam à venda do seu tabaco em bruto.

Na tabacaria Tab Tagus, no Tagus Park, em Oeiras, as intenções de poupança também levaram ao aumento das vendas do tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Ali conhece-se todo o tipo de clientes: os que "experimentam e ao fim de algum tempo desistem porque dá mais trabalho" - afinal, não é só chegar, pagar e fumar. E também os que "passam a fumar menos porque têm menos paciência.

Enrolar à mão exige agilidade, perseverança e algum treino. As máquinas são baratas e ajudam. Há mortalhas e mortalhas - umas não são recomendáveis a principiantes, pois vão fazer o cigarro morrer rapidamente. Seguindo as pistas do i, é capaz de chegar lá. Mas, ponto número um: sim, o tabaco de enrolar faz mal à saúde. Ponto número dois: sim, é capaz de lhe dar algum trabalho. Mas sempre dá para poupar uns trocos ou, quem sabe, desistir de vez.

Máquinas de enrolar. Tecnologia pensada para ajudar o vício


Num dos seus textos publicados no “Sunday Times”, a cronista Shane Watson descreve o acto de enrolar um cigarro como uma forma de apreciar os prazeres lentos da vida. E diz que fumar tabaco de enrolar não se limita ao fumo, não tem a ver com uma fixação oral ou um tique nervoso. De facto, há qualquer coisa de ritual em enrolar um cigarro manualmente. Mas para os mais cépticos existem máquinas que substituem a destreza manual. Uma delas, uma caixa metálica parecida com uma cigarreira, serve para guardar o tabaco e fazer um cigarro. Basta para isso abri-la, despejar o tabaco e voltar a fechar: voilà, cigarro enrolado. Entre as novidades no mercado estão as máquinas de tubos. Em vez de mortalhas, estas máquinas utilizam o tubo vazio de um cigarro já com filtro, bastando apenas enchê-lo de tabaco. Exige alguma prática, sobretudo no que toca à quantidade de tabaco – tal como acontece com outras máquinas –, mas o resultado é um cigarro normal. Uma caixa de 250 tubos custa cerca de 2€. Já as máquinas variam entre os 4€ e os 12€.
Mortalhas. Coloridas ou até com sabor

São rectangulares, em papel de arroz ou normal. Há quem lhes chame “lençol” ou simplesmente “papel”. Antigamente, as mortalhas pareciam folhas de impressora, tal era a sua grossura, o que fazia com que o tabaco se consumisse mais depressa. Técnicas como a da “gravata” – pôr saliva no borrão para atrasar a combustão – eram frequentemente utilizadas. Hoje a prática está associada a outro tipo de consumos. No mercado português há “papéis” para todos os gostos: de vários formatos, combustão lenta ou rápida, às cores, com desenhos e transparentes. E, tal como nos preservativos, há mortalhas com sabores. Em média, cada carteira traz cinquenta, embora seja possível comprar embalagens de 300. Outra solução são os rolos, que permitem escolher o tamanho do cigarro. Os preços variam entre os 0,75€ e os 3€.

Mitos & Conselhos

O tabaco de enrolar é menos prejudicial à saúde? Há quem o defenda, dizendo que não tem tantos químicos como os cigarros normais. Mas o argumento vale para o outro lado da discussão: a sua produção é mais barata e o controlo de qualidade inferior.
Ao abrir uma onça de tabaco de enrolar, não rasgue completamente o fecho selado. Essa é a melhor forma de conservar a frescura do tabaco, caso contrário o ar seca as folhas.
Gosta de chegar ao fim do dia e sentar-se em frente à televisão a relaxar? Então aproveite e enrole os cigarros para o dia seguinte. Evite andar de bolsos cheios (tabaco, mortalhas, filtros) e não precisa de andar a enrolar cigarros à frente dos seus colegas de trabalho preconceituosos.

Fonte: ionline.pt

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